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Penso Rápido

Pequenos Remédios, para as comichões do dia-a-dia.

Penso Rápido

Pequenos Remédios, para as comichões do dia-a-dia.

Afinal, quem sou eu?

Há dias mornos, de brisa suave. Dias de sol quente que aconchega os braços. Dias de abraços da vida em que tudo encaixa tão bem que parece uma engrenagem perfeita de saberes adquiridos e experiências ainda novas por chegar. Dias de primavera e dias de verão. 

E depois há os outros. 

Levantou-se e o telemóvel ficou sem bateria, logo agora que ia avisar que ia chegar mais tarde. O carro deu sinal de gasóleo na reserva e as bombas mais próximas, naquele ermo de vida, ficavam a mais de muitos quilómetros. Será que ia dar, será que não?

Sente uma estrada de buracos e ouve uma jante a raspar na berma. Mais um risco para a coleção de riscos daquele carro riscado.

A discussão de ontem ainda bem acesa. As palavras que cortam por dentro como estilhaços de vidro. Foi colocada tanta coisa em causa. 

Afinal, quem sou eu? 

Pergunta-se uma e outra vez. Pára o carro. Mal abre a porta, porque precisa de respirar aquele ar de montanha, começa a chover. Começa a chover muito, muito. Fica ali a ensopar-se. Já não quer saber.

Afinal quem sou?

A discussão de ontem doeu. Como dói o universo parecer que está a conspirar contra ela. Será? Não acredita. Limpa o rosto, olha lá para o alto do maior pico da montanha que a viu crescer. Saudades daquele embalo de mãe, das cavalitas do pai, das gargalhadas do irmão. Abraça-se a si mesma. E chora. Chora como se quisesse fazer uma corrida com a própria chuva. 

Afinal, quem sou eu?

Hoje diferente de ontem. Ontem foi tudo colocado em causa: a sua casa, o seu trabalho, as suas histórias, as suas paixões. 

Afinal, quem sou? Limpa o rosto. Limpa a alma e percebe de uma só vez que é nos fragmentos que os outros lhe traçam, que encontra as suas forças maiores. Que a última palavra será sempre a dela, permita-se de uma só vez ter a voz mais alta e mais forte. Calar as outras vozes que falam de ar e vento. Vozes que cobiçam e que se perdem no meio daquela chuva.

Entra no carro toda encharcada e mais leve. A água levou, as dúvidas e incertezas. 

Afinal, quem sou eu? Sou eu, e só eu sei, da minha história para contar.

P.S.: Dedicado à minha querida Luísa. 






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